Uma mensagem por mais educação e menos prisão - Mailson Ramos

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Uma mensagem por mais educação e menos prisão


Uma mensagem revela o sentimento de uma sociedade: por mais educação e menos prisão, porque, afinal, a abolição não libertou.

A vida nos impõe imagens e mensagens que muitas vezes podem passar despercebidas. Nelas reside, muitas vezes, um discurso próprio de quem está à margem da sociedade, de quem se sente excluído ou não partícipe das decisões fundamentais para o país. Estamos diante de um impasse político de proporções inimagináveis; achamo-nos suplantados pelo conservadorismo da Câmara dos Deputados que luta pela redução da maioridade penal, pela terceirização, pelo financiamento privado de campanhas, para esconder dos consumidores informações nutricionais dos alimentos que eles compram. Estamos diante de um monstro que requer prisão e não educação.

As letras garrafais pichadas no canteiro de obras do metrô de Salvador, na região da rodoviária, chamaram-me a atenção. Muito provavelmente milhares de pessoas passarão por aquele espaço nos próximos dias e não se darão conta da mensagem. “Abolição não libertou. Mais educação, menos prisão”. Um recado sintomático do que tem acontecido nas grandes capitais do país. Salvador, como a mais negra de todas elas, expõe num sentimento reflexivo as dores das mães que tiveram seus filhos agredidos pela polícia, quando não assassinados. Porque são negros e isso basta para explicar a fúria das forças de des(segurança).

Abolidos não estão o menino Davi Fiúza, o jovem Geovane Mascarenhas e tantos outros casos que a mídia, para não alardear, suprime em suas pautas. Na Bahia não se almoça sem antes ver na TV um policial subir o morro ou um repórter achincalhar um bandido na cadeia. Os programas policiais se transformaram em policialescos, uma vertente de humor negro do verdadeiro jornalismo policial. Constrange ainda mais quando se sabe que a maioria dos telespectadores da barbárie diária são os próprios moradores das comunidades. Existe aí um deleite com a desgraça humana e com a constatação de que alguém pode escolher o caminho certo e acaba se envolvendo com as drogas.




Mas qual seria o caminho certo, se a sociedade não coloca à disposição dos jovens tudo aquilo que ele precisa para crescer como cidadão e ser humano? Como se pode pensar em transformação social se os jovens estão compelidos a permanecer entre o não abolicionismo e a prisão? Que ideais de liberdade são estes propagados pelo poder estabelecido se o negro é sempre alvo das forças policiais? Em fevereiro, no bairro do Cabula, doze jovens foram executados pela PM baiana. Executados sumariamente porque não se atestou um revide. Entretanto, o que resta sob a análise de que nós, negros, vivemos num regime de exceção? Resta lutar como sempre se tem feito. Lutar por uma abolição concreta e não no plano das ideias.

Não se pode acostumar com a ideia de que todos os dias dezenas de jovens tombam diante das armas do Estado; este mesmo Estado que não oferece condições propícias aos seus filhos. Diante de tal incapacidade, uma mensagem perdura sobre o zinco de um canteiro, ignorada por milhares de pessoas que todos os dias passam pela rodoviária de Salvador. É como se Salvador, em toda sua negritude, encontrasse coro em vozes como aquelas reunidas na Barra contra o governo da presidenta Dilma. É como se a voz de um conservadorismo dissonante voltasse a flertar com a época da escravidão quando na verdade deveríamos abraçar a evolução do pensamento. +Educação –Prisão.

Fonte: Nossa Política






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Código do Artigo: MR2309151




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