Serviços | Fale conosco | | | | | |
| | | | | | |
ARTIGOS
DORA LORCH | LIVROS| FALE CONOSCO

NEM SEMPRE É O QUE PARECE

Marcos tinha sete anos, dois irmãos menores, e dois pais adolescentes. A mãe contou que ela era terrível quando ele nasceu, não queria ficar em casa, saia toda noite, não tinha vocação para ser mãe. Por isso seus pais, os avós do menino resolveram criá-lo. E ela saiu vida afora. Depois conheceu o pai dos outros filhos, também jovem, mas com muita vontade de construir uma família. Os dois juntos começaram uma vida mais regrada, com responsabilidade.

Eu os conheci numa reunião de escola, onde eu estava fazendo uma palestra sobre como colocar limites. A mãe insistia em dizer que “batia muito na filha, e batia mesmo. E quem era eu para dizer algo contra isso?” A conversa ia nesta toada, até que as meninas chegaram perto, e eu pude ver o carinho e delicadeza entre mãe e filhas. Aliás, as filhas eram muito magrinhas, pequeninas mesmo, com três e quatro anos.

Sei por experiência própria que as mães que dizem que batem nos filhos em palestras abertas, quase sempre não são violentas; as realmente violentas não abrem a boca, nem olham para mim. Por isso, ao alimentar a fala desta mãe, só queria mostrar que havia outras maneiras de ser obedecida.

Mas no final da conversa, ela veio falar comigo sobre o filho mais velho, aquele que estava sob a guarda do avô, e que ela queria de volta. Contou que seu irmão era viciado em drogas e sabia que deixar o filho naquela casa era a certeza de que ele também iria se viciar. Falou que agora que estava estabilizada queria criar seu filho. E pedia ajuda para isso.

Falou que na sua aflição, muitas vezes tinha batido neste menino, que estava descontrolada de ver ele se metendo com “más companias”. Encaminhei então a família para o grupo de pais do Florescer da Fábrica.

Semanas depois, Marcos sentou no meu colo e cochichou no meu ouvido que queria falar comigo “a sós”. Disse que era sobre sua mãe.

Ele me contou que ela tomara todos os remédios que tinha em casa. Estava com medo dela querer se matar.

Chamei a mãe para uma conversa a parte. Perguntei como as coisas iam. Ela me falou que estava cansada das pessoas insinuarem que ela era encostada. Ela e o marido eram jovens e fortes e poderiam trabalhar, mas não conseguiam emprego. Duas semanas atrás o marido foi chamado para uma entrevista, mas não tinha dinheiro para a passagem de ônibus. Ela tivera vergonha de pedir emprestado, porque não sabia se o marido conseguiria o emprego, e como iria devolver a quantia? Em casa não tinham pouca comida. Dava graças a Deus que os filhos estavam na escola, porque lá eles tinham o que comer. Na semana passada fora páscoa, as crianças ficaram em casa, e a dispensa estava vazia. Ela deu o que tinha para os filhos, e ela ficara com fome. No desespero, comeu todos os remédios que encontrou. Era só o que ela tinha para comer.

Conforme ela ia contando ia lembrando das crianças que ficavam depois do grupo para comerem conosco, nem que fosse chá com açúcar. De como elas precisavam ficar no nosso colo, de aconchego, de segurança. De quantas vezes ela não vinha buscar as crianças; nosso grupo era sábado e não tinha escola, nem merenda.

Ela tinha se inscrito no fome zero.

Era a 139ª da fila de espera.

Por isso ninguém denunciava quando o pai quebrava canos para vender e alimentar as crianças.

Três anos depois, encontrei com ela na rua, estava empregada numa casa de família, Zezinho com carteira assinada, com filhos na escola e construindo um lugar para eles morarem.

Infelizmente eles não foram considerados pais bons o bastante para ficarem com o Marquinho.

Para quem acha fundamental ensinar a pescar – e nós do Florescer da Fábrica também achamos – é bom lembrar que só se ensina gente viva.




CAPA | PORTAL | WEB RÁDIO | WEB TV | REVISTA | COLUNISTAS | RUMO CERTO | CNRN | HOT SITE | FALE CONOSCO

Todos os direitos reservados a Editora Novos Rumos Ltda - © Copyright 2009 - resolução 1024 - Desenvolvido por WDNR