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Dora Lorch
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O que fazer com estes adolescentes?

Tenho percebido que os pais estão cada vez mais perdidos em relação aos adolescentes. Primeiro porque a vida mudou muito nestes últimos anos: internet,celular, tweeter, bate-papo on line, baladas até o sol raiar... Junto a tantas mudanças os novos códigos de conduta: não pode agredir, não pode dar apelidos, não pode brigar na porta da escola, não pode transar se for menor de idade, não pode, não pode.

Todas estas regras inibem a agressividade dos adolescentes, logo deles, tão cheios de hormônios e desejos impossíveis! Se não tiver como extravasar tantas vontades e frustrações (diga-se de passagem, através de muito exercício, esporte, trabalhos, ginástica, atividades que os façam suar) esta montanha russa de emoções vai explodir na sala da sua casa, em agressões concretas ou simbólicas, através de ameaças para saber até onde os pais permitem que eles se expressem. Eles, mas aqui está incluso as meninas também.

Muitos pais ouvem as ameaças como promessas, e temem pelos filhos. Mas será que não há outra maneira de se lidar com o problema?

Carmem está perdida na educação de sua filha adolescente. Ela põe regras, mas a menina briga, grita a vida vira um inferno, e a mãe cede. Cede por medo do que a filha será capaz de fazer se ela não deixar. E cá entre nós Virgínia é boa de ameaça: ela diz um monte de coisas graves e feias, coisas de dar vergonha!

A casa acalma quando Virgínia pernoita na casa da amiga. Mas que amiga é essa? O que ela faz? Onde mora? Será que os pais dela sabem que Virgínia vai dormir lá esta noite? Carmem não sabe. Nunca falou com esta família, a não ser de passagem.

Os conflitos chegaram a tal nível que Carmem decidiu pedir ajuda: quem sabe se a filha fosse se tratar, as coisas poderiam melhorar. Foi assim que ela veio ao Florescer da Fábrica. Na conversa começamos a perceber que Carmem não conhecia os amigos da filha. Por que não conhecia? Nunca tinha falado com os pais da menina, apesar dela ficar vários finais de semana na casa da Mariana. Não sabia quem freqüentava a casa, nem quais os valores e pensamentos dos pais da Mariana, apesar destes pais tentarem conversar com ela. Nas raras vezes em que ela buscava Virgínia, Carmem se fechava e não puxava assunto.

Nos finais de semana a briga continuava: Carmem queria dizer que horas a filha deveria chegar e que horas deveria sair, mas não sabia aonde a filha ia.

Fomos conversando: o que era tarde para a mãe? Porque pode ser tarde para ficar na rua, mas não tarde se estiver em casa conversando. Se a balada começa 23h, como voltar antes da meia-noite? Como saber quem vai buscar se não conhece os pais dos amigos?

Conversa vai, conversa vem, percebemos que Carmem não tinha parâmetros claros para cuidar da sua filha. Não sabia quando deveria deixar e quando deveria vetar.

Começamos então discutindo as normas que poderiam protegê-la: a qualquer hora que Virgínia quisesse sair, seria importante saber com quem ia, onde ia, quem levava e quem buscava. Isso implicava num aumento de trabalho para Carmem, porque ela teria que conhecer os amigos e pais dos amigos para saber se eram pessoas da sua confiança. Implicava em convidar as amigas da filha para sua casa e prestar atenção nas meninas, talvez convidar as amigas e verificar como se comportavam.

Outra coisa que percebemos é que o diálogo entre mãe e filha não acontecia fazia tempo; elas só brigavam, e não havia explicação para as regras que a mãe impunha, nem para os elogios, nem para falar do que tinha acontecido durante o dia. Desta forma a filha não se abria com a mãe, e a mãe não conversava com a menina.

Sugerimos que ela descobrisse onde a melhor amiga morava, e que falasse com os pais da Mariana. Sugerimos também que ela convivesse com as amigas da Virgínia para ver quem elas eram.

Um tempo depois soubemos pela Carmem, que a filha tinha umas amigas muito legais, pessoas interessantes, com valores e postura parecidos com os da sua família. Por estar mais aberta ao dialogo, Carmem começou a descobrir que sua filha era mais ajuizada do que ela mesma pensava, e pasmem, que elas tinham gostos muito parecidos!

Carmem e Virgínia estão cada vez mais próximas, e por isso mesmo agora está mais fácil negar aquilo que a mãe considera nocivo para a filha. E apesar de reclamar, Virgínia obedece mais gora porque percebeu que as regras valem para protegê-la.

E as ameaças? Quando os filhos se aproximam dos pais, quando percebem a lógica das normas impostas, as ameaças perdem espaço. Nos casos onde a ameaça ainda acontece, há mais força para impor suas condições e agüentar a cara feia dos filhos. Porque é isso que acontece na maior parte dos casos: a ameaça é um desejo que quer se impor, mas se não houver espaço, vira frustração. Frustração é algo que precisa ser ultrapassado, de uma forma ou de outra, mas faz parte da vida. E aí é só agüentar a cara feia e a tristeza.

Ter regras claras, disposição para o diálogo e para explicar as normas impostas, e firmeza, podem fazer milagres no relacionamento entre pais e adolescentes.

Dora Lorch




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