Conflitos entre pais e filhos - Dra. Dora Lorch

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Conflitos entre pais e filhos


Desde que se tem notícias pais e filhos competem entre si. Competem porque os pais sentem que seu tempo “acabou” e “tem que” dar lugar aos mais novos; porque adjetivos como juventude, vitalidade agora não tem mais vez; e os filhos competem para terem direito à “liberdade” – é verdade que não querem as responsabilidades que vem junto…

Isso se intensifica no caso feminino quando beleza e frescor não fazem mais parte do universo da mulher. Mas há outros encantos: a segurança, o bom humor, a calma para lidar com os imprevistos, os ânimos mais temperados, os interesses e experiências que a vida acrescentou, tudo isso conta nesta hora. Ao fazermos uma reflexão sobre como foi nossa trajetória, com certeza mudaríamos alguns percursos, agora que sabemos no que elas se transformaram. Se o que nós construímos é mais do que o que achamos que mudaríamos, tentaremos passar nossos conhecimentos às próximas gerações, caso contrário a adolescência dos filhos se torna muito pesada porque invejamos a vida que se descortina à frente deles.

Esta sensação piora quando os pais acreditam que não há mais nada a ser feito, quando não veem novas perspectiva de vida, quando estrangulam seus sentimentos e sonhos. Nestes casos a agressividade entre os jovens e os mais velhos se acirra, deixando na geração madura um gosto amargo de fel.

Quando estes sentimentos acontecem no inconsciente, quando não se tem clareza do que está acontecendo, as brigas tornam-se absurdas para quem as assiste, porém desesperadoras para quem está do lado de dentro.

Elenice é uma mulher amarga, seca de corpo, seca de alma. Casou mas foi infeliz. O marido não a respeitava, batia nela, a afastou da família, e ainda por cima achava normal traí-la. Ela pertence a uma igreja que determina sua vida, inclusive como ela deve se relacionar com seu companheiro, o que ele pode pedir a ela, o que ela deve deixar. Quero frisar que o problema não é o que a igreja diz, mas o que as pessoas fazem com o que ouvem na igreja, e Elenice achava que as palavras proferidas na igreja eram leis inquestionáveis!

Insegura, sem modelo de felicidade em sua família, seguia tudo conforme achava que devia ser, ou seja, não se relacionava com seu marido, mas com a pessoa que ela queria que ele fosse. Este foi um dos motivos que fizeram seu relacionamento acabar. Deste casamento sobrou uma filha adolescente, cheia de vida, cheia de vontades, cheia de esperanças. Mas Juliana, este era o nome da menina, fazia questão que a mãe se relacionasse com quem ela era, esfregando a todo momento suas diferenças. Com a filha Elenice era obrigada a se relacionar.

Ela ficava insegura quando a filha queria sair, encontrar amigos, namorar, ir a festas, fazer estas coisas que todos os adolescentes fazem. Seu medo – pois ela já era medrosa quando mais jovem, por isso aceitou todas as amarras que vieram seja pela mão do marido, seja pela mão da religião – fizeram com que ela quisesse segurar Juliana em casa.

Um dia a menina chegou brava, contando que a mãe tinha sumido com uma roupa dela. (este era um dos artifícios que a mãe usava para cercear os passeios da filha). Elenice reclamava que a filha não sabia onde tinha guardado as coisas, a menina reclamava que a mãe tinha escondido deliberadamente, e tudo ia neste ritmo quando Juliana argumentou: Mãe, quando eu sai, o lençol das princesas estava na minha cama com a roupa em cima, e quando eu voltei o lençol estava na sua cama. Você mexeu!

Fez-se silêncio.




- O que quer dizer com o lençol das princesas estava na sua cama? Elenice, do que sua filha está falando?

O ato de pegar um lençol adolescente e colocar na cama de um adulto traduzia muitas coisas: havia sentimentos que não tinham crescido junto com a mãe e por isso a briga entre elas era uma briga de iguais. Não era uma discussão entre um adulto que cuida e põe limites e uma adolescente que reivindica, reclama, mas que se sente cuidada. A amargura da mãe se traduzia neste gesto: ela queria estar no lugar da filha. Elenice tinha comprado o lençol para ela, era ela que queria ser uma princesa. Não reconhecia o que tinha vivido, nem achava que esta experiência destes anos tinha lhe trazido algo de bom. Tentava, trocando a roupa de cama, anular toda uma vida de escolhas equivocadas. Atacava, mas por não reconhecer sua raiva, não tinha como lidar com ela, não tinha como reparar suas ações.

Para essa mãe, tudo era uma questão de forma. Sentimentos não eram aceitos.

Fonte: Revista Novos Rumos Ciência & Saúde






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