O que será que eles entendem? - Dra. Dora Lorch

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O que será que eles entendem?


A maior dificuldade de lidar com crianças é perceber até que ponto elas conseguem compreender o que estamos falando, e até que ponto estamos lidando com suas fantasias. Nossa compreensão é uma, e a deles é outra completamente diferente.

Como saber o que se passa por estas cabecinhas?

Uma chora porque não quer deixar cortar o cabelo, outra porque não quer entrar no mar. Quando adultos explicam: achava que a espuma das ondas era um monte de pedrinhas e que ia me machucar! Achava que cortar o cabelo doía, e que “tirar a franja” significava cortá-la bem rente.

A avaliação sobre a raiva dos adultos também é incompreensível para os pequenos, por isso perguntam: mãe você vai ficar brava se… e aí vem coisas que a gente nem imagina. Mãe você vai ficar brava se eu repetir o prato? Se eu ficar mais um pouquinho no banho? Se eu for na casa do papai?

O receio de perder o afeto dos pais guia as ações das crianças, e se elas perderem a esperança de serem aceitas por aqueles que lhe são caros, aí não há motivo para lutar, para agüentar, para postergar o prazer e fazer a obrigação. A não ser que novos vínculos sejam construídos. Agora imagine que esta criança tenha sido dada para adoção: sua insegurança estará potencializada, porque quem deveria amá-la acima de tudo – no caso os pais – não a quis, então quem irá querê-la? A sensação de que foi abandonada porque não tem nada de bom a oferecer ecoa dentro delas. Por isso os pais adotivos precisam frisar com mais freqüência que amam os filhos, que eles foram os escolhidos para compartilharem a vida. E não os abandonar de jeito nenhum![1]

Porém, ninguém se entrega sem antes mostrar seu lado mais escuro, e testar se será aceito.

Por isso as crianças em geral, e as adotadas em particular, tem episódios de ira, de fazer mal feito, de desobedecer. Quando chega na adolescência então, a raiva aumenta, e a paciência dos pais nem sempre aumenta na mesma proporção. Os filhos querem saber até onde podem ir, até que ponto podem contar com os pais, querem saber se são aceitos e amados.

Soma-se a isso, que hoje em dia muitas crianças ficam sem a supervisão direta dos adultos, que tentam monitorá-los a distância e pelo celular.

Foi o que aconteceu com o Felipe, um menino pré-adolescente, carinhoso e irriquieto. Ele deveria chegar da escola, passar em casa, e se ele quisesse, descer para brincar. Havia um adulto que não ficava diretamente com ele, e para piorar ele não tinha irmãos.

Então, num destes dias quando a brincadeira dos amigos estava mais convidativa do que a solidão do seu quarto, Felipe ficou lá embaixo brincando. Justo neste dia, seu pai tinha chegara mais cedo e o esperava. Uma hora e meia depois, começou a ficar preocupado: ligou para escola, para a perua; ninguém atendia o telefone. Preocupado, pegou a chave do carro e desceu para refazer os caminhos por onde o filho teria passado. Para sua surpresa e alívio, quem vinha entrando? O Felipe, todo contente. Bravo, deu uma bronca no filho, disse que já estava indo na polícia.

Depois disso Felipe ficou ainda mais triste (adolescentes mudam de humor, de triste para alegre sem aviso prévio, e numa rapidez que nem sempre nós acompanhamos). Tanto que os pais acharam por bem trazê-lo para uma conversa.

Ele estava mesmo muito triste, mas não sabia explicar o motivo.

Conversa vai conversa vem, ele me contou histórias sobre a escola, episódios onde ele era a vítima, o receio da reação dos pais, a falta de concentração.

Depois de ouvi-lo, quis ouvir os pais, que me contaram a história acima.

De repente tudo fez sentido:

- Felipe, você sabe por que seu pai iria até a polícia?

Seus olhos arregalaram, encheram de lágrimas. Não sabia.

Para nossos filhos a polícia existe para por ordem, para castigar, para por limites. Nem passou por sua cabeça que a polícia também ajuda, neste caso a encontrar um filho que o pai não sabia onde estava. Felipe achava que merecia ser castigado, e isso o colocava no lugar da vítima, daquele que não pode reagir.




Ao longo da nossa conversa os pais foram percebendo que o menino não sabia os motivos que deixavam seus pais chateados, ou bravos. Não sabia que era muito amado. As cobranças soavam como possibilidade de perder o amor deles.

Este risco já é grande per si, ainda maior para alguém que depende dos adultos para viver, para comer, para se sentir aceito e amado.

Por isso não conseguia parar quieto.

Quem consegue se concentrar quando o amor dos pais está em jogo?



[1] Há casos de casais que devolvem os filhos adotivos quando chegam à adolescência. Filho não é mercadoria, não há código de defesa do consumidor para devolução nem de pais, nem de filhos.

Fonte: Revista Novos Rumos Ciência & Saúde






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